Existem relações que mudam o ambiente inteiro.
Às vezes, basta uma pessoa chegar para que todos ao redor passem a agir de outra forma. As conversas ficam mais cuidadosas, alguns assuntos deixam de ser mencionados, alguém tenta acalmar, outro prefere ceder e há quem comece a se justificar o tempo todo. Sem perceber, cada pessoa passa a ocupar um papel. Uma vira a conciliadora. Outra, a culpada. Outra, a que evita conflito. Outra, a que se cala. E é assim que a dor de uma pessoa pode começar a organizar o comportamento de muitas outras. Esse fenômeno pode aparecer em famílias, empresas, amizades e relacionamentos. E um dos conceitos que ajudam a compreendê-lo é a projeção.
O que é projeção?
Na perspectiva psicanalítica, a projeção acontece quando sentimentos, conflitos ou características difíceis de reconhecer em nós mesmos passam a ser percebidos como se pertencessem principalmente ao outro. Pode ser raiva, medo, vergonha, insegurança, necessidade de controle, medo de abandono, sensação de inadequação.
Aquilo que não conseguimos reconhecer internamente não deixa simplesmente de existir. Pode continuar influenciando a forma como interpretamos o comportamento das pessoas e como reagimos a elas. Mas existe uma pergunta importante:
Por que algumas projeções parecem atravessar tão profundamente algumas pessoas?
A resposta passa por algo simples: ninguém recebe o olhar do outro a partir do zero. Todos carregamos uma história.
A projeção encontra aquilo que já está sensível
Imagine uma pessoa competente que começa a trabalhar com alguém que constantemente questiona sua capacidade. No início, talvez ela perceba que as críticas são exageradas. Mas o comportamento continua. Suas decisões são colocadas em dúvida. Os erros são ampliados. Os acertos são minimizados. As opiniões são desqualificadas. Depois de meses ou anos, pode acontecer uma mudança silenciosa. A pergunta deixa de ser:
“Por que essa pessoa me trata como se eu fosse incapaz?” e passa a ser: “Será que eu realmente sou incapaz?”
Esse é um ponto importante. O olhar do outro começou a ser utilizado como espelho. Isso acontece porque todos nós temos regiões mais vulneráveis. O medo de não ser suficiente. A necessidade de aprovação. O receio de decepcionar. O medo da rejeição. A necessidade de pertencimento. A dor do abandono. Uma projeção pode ganhar força quando encontra exatamente uma dessas regiões.
Quando uma identidade é construída de fora para dentro
Talvez um dos efeitos mais silenciosos das relações seja a possibilidade de começarmos a acreditar na personagem que alguém criou para nós. Uma pessoa ouve repetidamente que é egoísta, difícil, fraca, desorganizada, incompetente, problemática. No início, discorda, depois começa a se explicar. Mais tarde começa a duvidar. Até que, em algum momento, passa a se comportar como se aquela descrição realmente fosse uma parte definitiva de sua identidade.
É quando a máscara começa a parecer rosto. E quanto mais tempo uma determinada imagem é repetida, mais difícil pode ser perceber onde ela começou.
Responsabilidade não é culpa
Aqui é necessário fazer uma distinção importante. Reconhecer que uma dinâmica nos afetou não significa responsabilizar alguém pela violência, humilhação ou manipulação que sofreu. Quem agride continua responsável pela agressão. Quem manipula continua responsável pela manipulação. Quem humilha continua responsável pela humilhação. Mas depois existe uma segunda questão:
O que fazemos com aquilo que fizeram conosco?
Talvez você não seja responsável por tudo o que aconteceu em sua história. Mas pode precisar assumir responsabilidade por aquilo que continua carregando hoje. Pelas crenças que incorporou. Pelos padrões que continua repetindo. Pelas escolhas que ainda são organizadas por uma experiência antiga. Responsabilidade, nesse contexto, não significa culpa. Significa possibilidade de resposta.
Quando o externo começa a definir quem você é
Ao longo da vida, recebemos inúmeras mensagens sobre quem deveríamos ser. A boa filha.O filho forte. A mãe que consegue cuidar de tudo. O profissional que nunca erra. O líder que sempre tem respostas. A pessoa agradável. A pessoa que não decepciona ninguém. A pessoa que evita conflito. Em muitos momentos, adaptar-se a essas expectativas pode ter sido necessário. O problema começa quando deixamos de perceber que estamos desempenhando um papel. A personagem criada para funcionar começa a ser confundida com identidade. E surge uma pergunta fundamental:
Quanto daquilo que você chama de “eu” realmente representa você e quanto foi construído para atender expectativas externas?
Antes do autoconhecimento pode existir o auto-desconhecimento
Costumamos ouvir muito sobre a importância do autoconhecimento. Mas talvez exista um movimento anterior. Antes de adicionar novas explicações sobre quem somos, pode ser necessário questionar algumas antigas. Desconhecer aquilo que foi incorporado sem ser escolhido. Questionar respostas automáticas. Separar identidade de adaptação. Perceber o que é escolha e o que é repetição. É possível que parte do processo de se conhecer seja justamente retirar algumas camadas que foram colocadas de fora para dentro.
A projeção também aparece em relações de poder
Algumas relações têm capacidade maior de influenciar nossa percepção. Pais. Parceiros. Chefes. Professores. Líderes. Pessoas das quais dependemos emocionalmente, financeiramente ou socialmente. Quanto maior a dependência ou a autoridade, maior pode ser o impacto daquela relação sobre a maneira como passamos a nos enxergar.
E a projeção pode começar a produzir consequências muito concretas. Uma pessoa que acredita que será abandonada pode tentar controlar tanto seus relacionamentos que acaba contribuindo para afastar os outros.
Alguém que acredita que ninguém é confiável pode tratar todas as pessoas com tamanha suspeita que dificulta a construção de relações profundas. Um líder inseguro pode diminuir constantemente sua equipe e, com o tempo, produzir exatamente a insegurança que dizia enxergar nos outros. Às vezes, aquilo que mais tememos pode ser reforçado pela maneira como tentamos impedir que aconteça.
Nem toda influência destrói
Existe, porém, outro lado. Assim como algumas pessoas fazem um ambiente se contrair, outras fazem as pessoas ao redor crescerem. Existem relações nas quais não precisamos diminuir quem somos, pessoas que despertam coragem, pessoas que fazem perguntas que mudam nossa maneira de enxergar uma situação, pessoas perto das quais conseguimos discordar sem sentir que perderemos a relação, pessoas que não precisam que sejamos menores para que elas se sintam maiores. Isso também é influência.
Todos nós deixamos marcas, em casa,no trabalho,nos relacionamentos, na vida dos filhos, dos parceiros, dos colegas, das pessoas que lideramos. A pergunta não é se deixamos marcas.A pergunta é: que tipo de marca estamos deixando?
Onde termina o outro e começa você?
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis das relações humanas,somos seres relacionais, somos afetados por palavras, silêncios, rejeições, aprovações e expectativas. Ser afetado pelo outro não significa fragilidade. O problema começa quando já não conseguimos diferenciar: o que sentimos daquilo que aprenderam a nos fazer sentir; o que desejamos daquilo que esperavam que desejássemos; o que acreditamos sobre nós daquilo que repetiram sobre nós; quem somos daquilo que precisávamos representar. Maturidade emocional talvez não seja se tornar impermeável. Talvez seja desenvolver a capacidade de ser afetado sem abandonar completamente a própria referência.
O que fazer com aquilo que você percebe?
Quando um padrão começa a ser identificado, surge uma possibilidade importante, em vez de pensar apenas: “Eu sou assim.” podemos começar a perguntar: “Eu aprendi a responder assim?” Essa diferença é enorme. “Eu sou assim” parece definitivo. “Eu aprendi a responder assim” abre espaço para desenvolvimento.
Quando conseguimos perceber como pensamos, sentimos e agimos diante de determinadas situações, começamos a identificar onde uma nova habilidade pode ser construída. Talvez o objetivo não seja controlar tudo aquilo que nos afeta. Mas perceber melhor o que acontece conosco quando somos afetados.
Uma pergunta para levar com você
Talvez algumas características que você acredita que definem quem você é tenham sido construídas em relações nas quais precisou se adaptar. Talvez algumas inseguranças tenham sido fortalecidas por olhares que você recebeu durante muito tempo. E talvez alguns padrões que ainda se repetem hoje tenham começado muito antes de você perceber que estava escolhendo. Por isso, vale fazer uma pergunta:
O que realmente me pertence e o que continuo carregando porque alguém, em algum momento, me convenceu de que aquilo era meu?
A resposta talvez não apareça imediatamente. Mas reconhecer a pergunta já pode mudar a maneira como você observa sua própria história. Porque compreender o que veio do outro não significa apagar o passado. Significa recuperar a possibilidade de decidir o que continuará fazendo parte de você daqui para frente.